“Cinema não é só pão e circo, é cultura”

segunda-feira, 4 fevereiro, 2019 | 17:22

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Era início dos anos 80. O então professor de inglês Renato Manfredini Júnior opinava sobre filmes e diretores que o programador da sala de cinema da Cultura Inglesa, José da Mata, iria exibir. Queria ver Quadrophenia (1979), o longa de Franc Roddam baseado no álbum homônimo da banda de rock The Who. Censurado no Brasil por tratar de temas como transgressão e suicídio, o filme só chegou às mãos de Da Mata quase 40 anos depois – mais de 20 deles após a morte do amigo que virou líder da Legião Urbana. “Chegou a hora de eu pagar minha dívida com o Renato”, diz o novo programador do Cine Brasília ao incluir o clássico na programação da sala em 2019.

O baiano José da Mata tem sua história envolvida pelo cinema. Foi responsável pela fundação de projetos audiovisuais importantes da capital, como o Cine Clube de Brasília, o Cinema da Escola Parque e o Centro de Cultura Cinematográfica da Cultura Inglesa. Também já esteve à frente da programação do Cine Brasília entre 1985 e 1993. Reassumiu o posto agora, no governo Ibaneis, desde 24 de janeiro com o compromisso de atender o público cativo dos clássicos e das produções nacionais, além de atrair jovens acostumados aos blockbusters nas salas de shoppings. “Cinema foi feito para educar, não para imbecilizar o povo.”

A sala de exibição pública da capital, com 606 lugares na 107 Sul, é uma das poucas de rua remanescentes no Brasil. Inaugurada junto com Brasília em 1960, é também a única do país projetada por Oscar Niemeyer. Leva ainda a marca de Athos Bulcão nas paredes da sala de projeção.

Até meados dos anos 70, o Cine Brasília fazia parte do grupo Severiano Ribeiro – a maior distribuidora e exibidora de filmes do país. A programação da época, predominantemente americana, era acompanhada por um embaixador do cinema dos Estados Unidos, que incentivava a exibição de longas-metragens estadunidenses. Há 48 das 51 edições, sedia o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Para 2019, Da Mata já tem planos: projetar uma mostra com clássicos do western e outra com mais de cem clássicos mundiais de todos os gêneros. Em conversa com a Agência Brasília, ele fala sobre cinema e os planos para o Cine Brasília no governo Ibaneis.

O que faz um programador?
É o responsável pela escolha dos filmes. É quem faz o contato com as distribuidoras, recebe toda a filmografia disponibilizada, pontua os filmes que quer e os que não quer, e depois programa o que vai entrar em cartaz. O programador tem que ter o ABC do que seja a indústria cinematográfica, além das exibições do cinema. Faço isso há quase 45 anos.

Nesses anos, sua trajetória se confunde com a história do cinema de Brasília.
Sim. Cheguei aqui em 1965 e estudei no Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab), em Taguatinga. Lá ajudei a fundar o primeiro cineclube do Cemab. Exibimos uma série de filmes importantes do neo-liberalismo italiano, da chanchada brasileira, dos clássicos do western… Já no Plano Piloto, tive contato com o Cineclube de Brasília que, pra mim, foi o grande cineclube dessa cidade. Víamos ali toda a filmografia mundial, das produções de Hollywood às soviéticas, polonesas, francesas… Era uma grande escola. Com o endurecimento da censura, foi fechado e o público – ao qual eu me incluía – ficou órfão. O Cine Brasília naquela época exibia as grandes produções norte-americanas. Daí nos juntamos e reabrimos uma sala no auditório dos Diários Associados. Depois voltamos para a Escola Parque, nos mudamos para a 508 Sul, onde hoje é o Espaço Cultural Renato Russo, até que ajudei a fundar um cineclube no auditório da Cultura Inglesa.

Que foi quando você conheceu o Renato.
Sim, o Renato era professor de inglês. Inauguramos com Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, e Brasília Segundo Feldman (1979), de Vladimir Carvalho. Foram 12 anos de muito sucesso. Formamos ali três gerações de cinéfilos e cineclubistas, inclusive o Renato, que não saía de lá, assistindo e dando sugestões de filmes que ele conhecia. Uma vez ele me sugeriu passar A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir. Mas ele pedia por muito tempo para gente exibir Quadrophenia. A gente nunca o conseguia porque era um filme proibido pelo seu conteúdo transgressor. E não é que agora, depois da morte do Renato, eu consegui o filme?! E já liberado. Então eu quero pagar a minha dívida com o Renato Russo exibindo Quadrophenia, se possível no Cine Brasília.

Qual é a sua formação?
Me formei dentro das salas de cinema. Minha escola foi ali, assistindo aos melhores filmes, aprendendo com os melhores diretores. Meus professores foram Nelson Pereira dos Santos, Humberto Mauro, Glauber Rocha, João Forte. Aprendi assistindo o que eles fizeram.

Como deve ser sua atuação à frente do Cine Brasília?
O Cine Brasília é um cinema histórico, com uma programação histórica que já formou muitas gerações de cinéfilos. Tem o seu público certo, já conquistado. Pretendo fazer a partir de agora a melhor programação para esse clube porque o cinema não pode trabalhar só com lançamentos, mas com filmes de arquivo, da memória cinematográfica, com grandes mostras, reapresentando grandes filmes. Eu tenho mais de 100 clássicos que estão há mais de 20, 30 anos que não são exibidos. Essa geração nova não conhece. Não sabe quem é João Forte, Nelson Pereira dos Santos, Humberto Mauro, (Jean-Luc) Godard… É uma geração das continuidades de filmes de super-heróis. Um cinema sem alma, sem conteúdo. Mas o cinema foi criado para educar, não para imbecilizar o povo. E essa é a função do Cine Brasília.

O que já está sendo pensado nesse sentido?
Eu pretendo fazer uma mostra chamada “Nos Tempos das Matinês”: uma retrospectiva de cem grandes filmes só de western, mas filmes maravilhosos, exibidos num horário alternativo da tarde. E a outra chamada de “Para Aqueles que Nunca Souberam, Para Aqueles que Não se Esqueceram”, esta também com mais de cem filmes, começando lá com Aurora, da década de 20, passando pelo neo-realismo, nouvelle vague, o realismo soviético… mostrando os principais filmes que fizeram a história do cinema.

E o que fazer para não só atrair o público cativo, mas também aquele que pouco ou nada sabe dos filmes de arte?
Aí é fazer um grande trabalho de divulgação. Cinema de arte se descobre indo ao cinema. Mas não é simplesmente exibir os filmes. É explicá-los, dando materiais informativos sobre cada produção. É preparar o público para o que for a ele apresentado.

Que mensagem é legal dar aos jovens e ao público que nem conhece o Cine Brasília?
Temos que atrair e mostrar a essas pessoas que o cinema não é só pão e circo, mas é cultura também. Não são só os super-heróis. O cinema tem alma, tem texto, tem coração. Vamos levar essa geração que está dentro dos shoppings para o Cine Brasília.


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