Hip Hop vira disciplina na UnB

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Aulas têm início hoje e terão duração de 16 semanas; primeira turma já conta com 35 inscritos

 

“Vamos ali fazer um freestyle, reunir e ficar só fazendo rimas mesmo.” O convite, ainda em 2015, foi o embrião da mais nova disciplina da Universidade de Brasília (UnB), que inicia as aulas na noite de hoje. De um grupo de pouco mais de 15 jovens improvisando rimas com palmas ou violão às salas de aula, a Batalha da Escada, ou simplesmente BdE, realizada na área externa do Instituto Central de Ciências (ICC) Norte, promete aliar a cultura hip hop à academia.

Aberta a todos os currículos da universidade, a Batalha da Escada, enquanto disciplina, tem por objetivo fomentar estudos e pesquisas relacionados ao hip hop. Nas aulas, os coordenadores passarão o histórico da BdE e os meandros da cultura. “A gente propõe um convidado por aula e um modelo mais dialógico e menos impositivo”, comenta Rafael “Stroga” Montenegro, 25, responsável pelo som do projeto. Ao fim das 16 semanas, os estudantes devem apresentar um projeto final sobre o tema.

Antes de abrirem as matrículas, em 2 de agosto, os responsáveis pela matéria emitiram formulários de intenção, apenas para sondar o interesse dos alunos. Foram 35 inscrições, número que surpreendeu os organizadores. “Tá todo mundo numa pilha de nervos, mas eu acho que vai dar muito certo isso”, revela Rafael Steigleder, ou “Stei”. Aos 27 anos, o bacharel em Geografia está no grupo desde o surgimento.

Andrezza Cardoso, 21, é uma das interessadas. Caloura de Stei, busca no espaço um objeto de estudo alinhado às matérias da faculdade. “Quarta-feira é o dia da batalha, virou um espaço muito bem ocupado. Uma intervenção artístico-social à qual as pessoas vêm pra poder falar suas realidades, pra passar um recado, pra conversar”, comenta a universitária.
As aulas da BdE acontecem nas terças, dentro da sala, às 19h30. Nas quartas-feiras, no mesmo horário, os alunos descem as escadas com os professores e caem de cabeça na organização do evento, que vai das 19h às 22h. Os estudantes podem atuar nas áreas de Relação Institucional, Financeira, Produção Cultural, Secretaria e Comunicação.

Pouco a pouco, o rap na capital tomou para si a representatividade das classes menos presentes na discussão social, e outras demandas acharam espaço entre as métricas quebradas do gênero. A luta de classes no quadradinho ganhou voz, com batidas ao fundo, e grita nos ouvidos de todo o DF.

“Aqui tem umas dinâmicas peculiares”, comenta o coordenador de som do Projeto de Extensão. “Tem a periferia descobrindo a universidade e a universidade descobrindo a periferia toda quarta-feira, de graça”, finaliza, entre risadas.

Do improviso para o meio acadêmico

Iniciada entre brothers, pouco a pouco o número de envolvidos na Batalha da Escada aumentou. Logo vieram as primeiras caixas de som e as falas amplificadas geravam incômodo. Foi quando o improviso ganhou ares institucionais. “A gente basicamente queria parar de ter problemas com a segurança [da UnB], porque a gente fazia bastante barulho”, comenta Stei.

Para isso, Leonardo Matheus foi fundamental. Estudante de História, estagiava no Decanato de Extensão da UnB em 2017 e via os pedidos que chegavam à mesa. “Aí procurei a organização da batalha pra trocar essa ideia”, lembra Léo.

Deu a ideia e foi bem recebido. Tão bem que logo foi chamado a assumir a coordenação de Relações Institucionais. Para Léo, a mudança, ocorrida no primeiro semestre de 2018, é fundamental para a própria universidade, já que “casa muito com a realidade” vivida por boa parte da população. Ele também é encarregado por apresentar as batalhas nas quartas-feiras, comandando as votações e convocando os MCs ao microfone.

O modelo é simples. Os Mestres de Cerimônias (MCs) põem o nome na lista e são chamados, dois por vez, ao palco improvisado. O DJ solta o beat e cada um tem um minuto para “soltar a ideia” para o público, que senta na escadaria que batiza o movimento e julga quem é o vencedor. JBr