Bartolomeu Rodrigues: “Brasília se define pela cultura”

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Em entrevista à Agência Brasília, o secretário de Cultura e Economia Criativa fala sobre os projetos de sua pasta.

Por Lúcio Flávio

 

Da janela panorâmica da sua sala, no primeiro andar da Biblioteca Nacional, o novo secretário de Cultura e Economia Criativa (Secec), o jornalista Bartolomeu Rodrigues, o Bartô, vez por outra flagra e se diverte com  pequenos fragmentos do cotidiano que dialogam com seu mais novo cargo.
Um deles são as quilométricas filas para entrar no Museu da República, a enorme bolota projetada por Oscar Niemeyer para abrigar obras de vanguarda de artistas plásticos do país inteiro e do mundo, quase ao lado da Catedral Metropolitana. “Nosso museu, hoje, desponta como um dos espaços mais visitados do Brasil”, observa, orgulhoso, o gestor.
Outro visual que chama a atenção do secretário é o balé formado pelos movimentos dos artistas de rua, que usam as vidraças da biblioteca como espelho para seus voos de dança contemporânea. “Tem dia que chego aqui e está a coisa mais linda do mundo, um monte de gente dançando espontaneamente”, exulta.
Pernambucano de Serra Talhada, cidade sertaneja ladeada pelo rio Pajeú, Bartô vive em Brasília desde 1977. Em entrevista à Agência Brasília, o novo secretário falou sobre a importância do setor para o DF, a reforma do Teatro Nacional e de outros equipamentos culturais da cidade, a formatação do Carnaval 2020 e os preparativos para os 60 anos da capital do país.

O senhor ganhou um voto de confiança do governador ao assumir a Secretaria de Cultura e Economia Criativa. Qual a expectativa à frente da pasta?

A expectativa não poderia ser diferente: otimista. No ano em que Brasília comemora seu 60º aniversário, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa tem papel fundamental de contribuir para a realização de eventos que vão marcar nossas memórias. Sou uma pessoa profundamente identificada com Brasília, com todo o Distrito Federal; aqui construí a minha vida, a minha família, e aqui vi os meus filhos crescerem. Ocupar esse cargo, sem dúvida, é uma honra, e espero corresponder à expectativa não apenas do governador, como de toda a sociedade.

Qual a dimensão da cultura em Brasília?

Brasília se define pela cultura. Ela nasceu, a rigor, de um projeto de desenvolvimento que nos fez olhar mais atentamente para o interior do país. E, a partir daí, permitiu que nos entendêssemos mais como gente, algo do tipo que lembra aquela canção: “o Brasil não é só litoral” [trecho da música Notícias do Brasil, de Milton Nascimento]. Um caldeirão cultural se formou inevitavelmente ao lado das linhas traçadas por Niemeyer e Lucio Costa, que por si só já são obras de arte. O que não é arte, o que não é cultura em Brasília? Até mesmo o céu veio se juntar a tudo isso. Acredito que na cultura Brasília define sua identidade, que no nosso caso é peculiar. O Brasil inteiro coube nesse quadrilátero de pouco mais de cinco mil quilômetros quadrados. Não é incrível?

“O que não é arte, o que não é cultura em Brasília? Até mesmo o céu veio se juntar a tudo isso”

Quais desafios espera encontrar? 

Todos os desafios do mundo. Afinal, tratar com cultura é isso. É saber que lá na frente você pode estar agradando ou desagradando alguém. No dia em que a cultura se definir pelo consenso, alguma coisa está errada. Indo um pouco além do que falei na pergunta anterior, gosto de pensar que é essa discussão, em cima dos contraditórios, que nos leva a pensar sobre a nossa realidade. Digo realidade social. A arte pode contribuir muito mais pelo social, pela tolerância, pelo fim dos preconceitos, seja de que natureza for, do que muitas ações ou programas que vêm e vão ao sabor da conjuntura econômica em que vivemos. Porque a cultura, nesse caso, não é paliativa. Ela permanece. Vou me permitir utilizar a liberdade que o governador Ibaneis nos oferece para pôr em prática um modelo de administração que garanta a participação dos agentes culturais de todas as áreas, dando aos representantes da sociedade a importância que eles merecem e precisam para a implementação correta de políticas públicas nesse setor.

Como o governo está se preparando para os 60 anos de Brasília?

Com muito entusiasmo. A Secretaria de Cultura e Economia Criativa está à frente de um grupo de trabalho composto por quase todo o corpo de governo para planejar e executar uma série de eventos importantes relativos ao aniversário da cidade. Teremos, claro, apresentações artísticas, shows e outros eventos que guardam relação direta com os pioneiros da cultura em nossa cidade.  Já começamos com a virada do ano e temos o Carnaval pela frente, porém será a partir de abril que teremos um calendário intenso de programação cultural, de forma a tornar esse ano inesquecível e encher de orgulho o peito de quem ama o Distrito Federal.

Como a Secec pretende formatar o carnaval este ano?

Vamos dar continuidade ao que deu certo no Carnaval do ano passado e iniciar um debate profundo sobre os carnavais futuros. Chegamos a um ponto em que é preciso discutir o formato ideal de uma festa dessa magnitude em uma cidade tombada, patrimônio da humanidade. Que espaço devem ocupar as escolas de samba? Como organizar os blocos, que aumentam em número e em participantes? Obviamente, cabe ao governo – existe uma lei nesse sentido no DF – trabalhar para garantir que a festa seja de todos, como manifestação popular, mas ao mesmo tempo [o governo] deve zelar pelo patrimônio e garantir a segurança da sociedade.

“Vamos dar continuidade ao que deu certo no Carnaval do ano passado e iniciar um debate profundo sobre os carnavais futuros”


O senhor assume a pasta com a missão de pacificar a classe cultural…

Sinceramente, não há o que pacificar, nem jamais teria essa pretensão. Me vejo apenas como alguém que, ao se identificar com o meio cultural, se dispôs a colaborar no diálogo que, ao meu pensar, precisa ser estimulado em todos campos da relação do Estado com o público. A reação da classe artística quando retomamos o edital Áreas Culturais do Fundo de Apoio à Cultura, de 2018, se por um lado me surpreendeu positivamente, por outro serviu para mostrar a importância desse incentivo legal em toda a cadeia de produção cultural da cidade. Agimos conscientes de que aquele era nosso dever, não se estava fazendo favor algum à classe artística, pois o recurso, por lei, já lhe pertence. O meio cultural é o que é porque representa a diversidade. Eu apenas estou me colocando como um interlocutor disposto a dialogar sempre e em buscar soluções juntos. Em alguns momentos, acredito, teremos pontos de atrito. É normal. Sou da opinião que, se as pessoas pensassem iguais, o mundo seria completamente confuso.

“Sou da opinião que, se as pessoas pensassem iguais, o mundo seria completamente confuso”

E a reforma do Teatro Nacional?

Vai sair. Há um esforço muito grande dentro do governo porque se tornou um escândalo ver um centro cultural tão emblemático de portas fechadas há tanto tempo. Pior: deteriorando a olhos vistos. Já há recursos disponíveis, que não saem dos cofres do GDF para isso, e neste momento discutimos até mesmo a possibilidade de não ficarmos limitados à abertura da Sala Martins Pena. Por que não o teatro todo? Há etapas importantes que precisamos cumprir até chegar a esse objetivo, etapas burocráticas, de projetos, de processos licitatórios etc. Mas o carinho como todos enfrentam esse desafio, o reconhecimento de sua importância tanto para o Distrito Federal quanto também para o país, nos deixa otimistas. Em breve, em cartaz, teremos o Teatro Nacional Claudio Santoro de volta à cena cultural brasileira.

Há projetos de reforma de outros equipamentos culturais da cidade?

Dê uma olhada no Museu da República e verá que ele está novinho em folha – aliás, é um dos três museus com maior número de visitantes/dia do Brasil. E estamos a todo vapor rumo à recuperação completa do histórico Museu de Arte de Brasília, o MAB, também para este ano, como parte das comemorações dos 60 anos. O MAB está fechado desde 2007 e, desde então, seu acervo se dispersou. Estamos reunindo tudo de novo para que a população tenha acesso às suas instalações, que são belíssimas e datam da inauguração da cidade. Não posso deixar de citar também revitalização da Praça dos Três Poderes, que é uma determinação do governador. Ela envolve a Secretaria de Cultura e Economia Criativa e outros poderes, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o próprio Palácio do Planalto, além do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]).

 

Agência Brasília