Hospitais da rede pública incentivam humanização na hora do parto

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Anda daqui e dali, descansa um pouco, respira fundo. Levanta de novo, senta na bola, recebe massagem do marido e lá vem mais uma contração. Nada de medicação, nada de apressar o processo natural. E foram assim as primeiras 12 horas de trabalho de parto de Vitória Júlia Silva, em sua primeira gestação à espera de Thiago Vinícius.

Durante o trabalho de parto, ela contou com a ajuda de uma enfermeira obstetra no Hospital Regional de Ceilândia (HRC), uma das unidades da rede pública com o maior número de profissionais da área. Elas prezam pelo protagonismo da gestante e pelo mínimo de intervenção possível durante o processo de nascimento.

O reflexo disso está nos números. “Há cerca de dez anos, 99% dos partos normais tinham corte. Este número vem diminuindo. Com as enfermeiras obstetras, registramos, no ano passado, apenas 14% de partos que necessitaram realmente de algum corte”, observa a supervisora de enfermagem do Centro Obstétrico do HRC, Suely de Jesus Cotrim.

Para exemplificar, ela aponta os dados de janeiro deste ano, quando, dos 68 partos normais realizados por enfermeiras obstetras, 40% não precisaram de corte e outros 50% tiveram rompimento natural do tecido, sem intervenção do profissional.

Menos dor
Para as mães que recebem esse atendimento, o processo representa um alívio, do começo ao fim. “Aceitei todas as sugestões da enfermeira e me ajudaram muito a aliviar a dor e também a aumentar a dilatação”, contou Vitória. Para o pai, Thiago da Silva, que acompanhou tudo de perto, ajudar a esposa diminuiu a ansiedade. “Estava muito nervoso, tanto que nem consegui comer”, relatou.

Parceira de Vitória neste trabalho, a enfermeira obstetra Caroline Medeiros conta que a assistência à mãe é integral, do momento que ela chega até depois do nascimento.

“Tentamos mantê-la ativa durante o trabalho de parto e vamos sugerindo técnicas, como um chazinho de canela, uso da bola, do cavalinho, banho de água morna, massagem, sempre incentivando o acompanhante a participar”, diz.

Baixo risco
As enfermeiras assistem ao trabalho de parto, ao parto e ao puerpério imediato das pacientes de risco habitual de forma autônoma, solicitando avaliação ou intervenção médica somente quando necessário.

“A enfermagem obstétrica preza pelo protagonismo da mulher no processo e promove assistência acolhedora e segura às mulheres, levando em consideração as boas práticas assistenciais ao parto”, observa a enfermeira obstetra do Hospital Materno Infantil (Hmib), Ivana Lisiane da Rocha.

Na unidade, em 2018, cerca de 18% dos partos normais foram feitos por enfermeiras obstetras. “A média de partos assistidos pelas enfermeiras obstétricas, em 2018, foi de 25 por mês. Neste ano, a média subiu para 32 partos/mês, sendo que, em março, 41 foram assistidos pela equipe de enfermagem obstétrica”, conta.

No Hmib, além de acompanhar as pacientes de baixo risco, as enfermeiras obstetras prestam apoio à equipe médica nos trabalhos de parto de alto risco. Elas orientam as pacientes ao longo do processo, monitorando a evolução do trabalho de parto e o bem-estar materno e fetal, promovendo conforto e medidas não farmacológicas de alívio da dor.

Benefícios
Além de aliviar as dores do parto normal, as técnicas utilizadas são importantes para a saúde da mãe e do bebê. Após o trabalho do parto, ainda é utilizada outra técnica de humanização chamada “hora de ouro”.

“O bebê nasce e já vai direto para os braços da mãe, ainda sujo, e por lá fica cerca de uma hora. Isso ajuda a regular a respiração, cria vínculo e resistência. Depois de uma hora, tiramos o bebê, fazemos as vacinas e vestimos a criança”, detalha a enfermeira Suely.

Mãe da recém-nascida Jade, Vanessa Rocha teve essa experiência e os profissionais perceberam a diferença na amamentação. Poucas horas depois, a menina já sugava muito bem. “A ajuda da enfermeira foi importante para eu me sentir mais tranquila, desde o trabalho de parto”, observou a mamãe de primeira viagem.

Centro de parto
A Secretaria de Saúde estuda a implantação de três centros de parto natural, dentro de hospitais da rede, chamadas intra-hospitalares. O formato seria diferente do que já existe em São Sebastião, que funciona exclusivamente com enfermeiras obstetras.

“Finalizamos os projetos complementares dos hospitais de Ceilândia, Gama e Materno Infantil, além da adequação da Casa de Parto de São Sebastião. O próximo passo é fazer a licitação para o início das obras”, informa Miriam Santos, membro do grupo condutor da Rede Cegonha.

Ela explica que as pacientes de risco habitual serão admitidas no Centro de Parto Normal e acompanhadas, exclusivamente, por enfermeiras obstetras, com o mínimo de intervenção possível. “Com isso, poderemos aumentar a capacidade do centro obstétrico tradicional, deixando-o livre para gestantes que necessitam de intervenções por complicação ou necessidade de cesariana”, destaca Mirian Santos.

Ela afirma que a pretensão da secretaria é ter uma casa de parto natural em cada região de saúde. “Escolhemos fazer o piloto em Ceilândia e Gama por serem as unidades com maior número de partos da rede, e no Hmib por ser referência”, conta.

*Com informações da Secretaria de Saúde