Vamos falar de política?

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Por Carlos Arouck

 

Eu me lembro quando eu era mais jovem… Meu pai, que tinha princípios rígidos, poderia até ser considerado hoje um homem “politicamente incorreto”. Mas o legado que deixou é ter conseguido cuidar com acerto da sua família, ao oferecer o único bem que tinha ao seu alcance: educação. Na sua sabedoria, vinda dos avós imigrantes e de pouca renda, ensinou aos quatro filhos que só com estudo seria possível alcançar uma posição melhor que a dele. Orientação acertadíssima. Todos nós, alunos de escola pública, conseguimos, ao longo de nossas trajetórias, levar uma vida menos árdua que nossos familiares. E somos gratos aos ensinamentos, que fazemos questão de repassar aos nossos filhos.

A verdade é que vivemos na atualidade uma cultura de cotas, de tentativas de inclusão social por meios de bolsas, de vitimização de bandidos, de ensino de baixíssima qualidade, de professores e alunos desmotivados, quando a verdade é uma só: não adianta esperar por sombra e água fresca às custas do Estado. Por mais duro que seja o caminho, quem persevera acaba encontrando seu lugar ao sol. Não há nada mais gratificante que a sensação de “ter chegado lá” por meio de seu próprio esforço. Mesmo que esse “chegar lá” seja uma posição modesta. O que importa é traçar uma meta e não deixar que ideias interfiram nos seus planos.

São muitas as tentações para desvirtuar os que não podem contar com o apoio da família. A criminalidade, por exemplo, é perita em resgatar menores em situação de risco. Do outro lado, institucional, existem ONGs para tudo e todos, Estatuto da criança, do idoso, Delegacia da Mulher, projetos de lei sobre os mais variados temas… porém o cidadão de bem continua se sentindo desprotegido, mal representado e receoso de que os maus exemplos possam se tornar mais atraentes que os exemplos rígidos de seus antepassados.

Outra recomendação de meu pai era que “carro e mulher” não se emprestava e que não devíamos discutir “futebol, política e religião”. Se o primeiro conselho se mostrou acertado, o segundo não. Todo brasileiro que nesses últimos cinquenta anos seguiu à risca essa crença contribuiu para a involução do conhecimento político pela sociedade, para a manipulação religiosa por meio dos seus dogmas e para que a arte do futebol fosse tomada por vândalos e organizações criminosas.

A simples orientação e tradição familiar – que parecia sensata à época – causou um grande estrago principalmente no desenvolvimento político do Brasil, porque serviu de terreno fértil para o discurso único da esquerda avançar sem resistência no nosso país. Não discutir política levou ao fim do pensamento contraditório. Os debates políticos deveriam estar presentes em todos os momentos da vida familiar e social de cada indivíduo. Uma das coisas mais decepcionantes é perceber que as pessoas, não importa de qual lado estejam, direita ou esquerda, dificilmente têm noção dos fatos diários que envolvem sua participação cidadã. Nem sempre a culpa é o mero desinteresse pelo assunto, e sim a falta do aprendizado crescente, baseado nos mesmos argumentos, com pouca sustentação teórica ou prática.

Nas minhas caminhadas diárias, eu gosto de conversar sobre diversos assuntos com as pessoas que encontro por meu caminho, de vários níveis sociais e de conhecimento. Serve, para mim, como um teste de conhecimento acerca das três questões proibidas de serem discutidas por várias gerações. O mais fácil é falar sobre futebol: o conhecimento é bem amplo, por exemplo, sobre campeonatos brasileiros, entre as pessoas de diversas faixas etárias e sociais.

Já sobre a política, os amigos deveriam poder discutir sobre qualquer assunto, desde ideologia, programas partidários, políticos, gestões governamentais, porque mesmo discordando, podemos aprender. Entretanto, às vezes, as pessoas são tão irredutíveis que nem escutam o que o outro tem para dizer ou alegam logo que não gostam de política. O Facebook revolucionou o modo como nos comunicamos e, às vezes, isso não é bom, por tirar o “olho no olho”, a possibilidade do contraditório. As repetições de mensagens sempre iguais em seu teor, muitas vezes não lidas e nem compreendidas pelos interlocutores, fazem com que se perca a chance de engajar em um bom debate político com um amigo, familiar ou companheiro de trabalho. Com um país marcado no momento presente pela polarização, as discussões sobre política e as opiniões pessoais sobre o tema se tornaram um verdadeiro campo de batalha, onde, em minha opinião, só há perdedores.

No campo da religião, para mim o mais prazeroso dos três temas proibidos de serem discutidos, Apesar de minha origem católica, conheci recentemente, na padaria onde costumo tomar meu cafezinho, um pastor de alto nível intelectual, com quem tenho travado uma salutar “batalha” pelo conhecimento religioso, na maioria das vezes perdendo ao apresentar argumentos frágeis para defender meus pontos de vista. A convivência e as conversas travadas aprimoraram o conhecimento de ambas as partes e têm modificado a compreensão de cada um de nós sem ofender o pensamento religioso pessoal. Todos saem ganhado conhecimento, convivência e amizade, mesmo em uma área considerada espinhosa e cinzenta, na qual predominam as agressões do que as trocas de informações e persistem os dogmas religiosos imutáveis.

Portanto, se meu pai acertou em priorizar a educação em nossas vidas, poderia ter continuado acertando se tivesse estimulado o aperfeiçoamento cidadão de cada um de seus quatro filhos por meio da discussão sobre política, religião e futebol. Tento não repetir o seu erro.

Termino citando o filósofo norte-americano William Penn. “Em todos os debates, deixe a verdade ser seu objetivo, não a vitória ou um interesse injusto”.