Dia do Professor: Ex-secretário Rafael Parente crê que é o mais nobre dos ofícios

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Continuando a série de reportagens sobre o Dia dos Professores, Tudo OK Notícias ouviu Parente, que entende não haver o que comemorar na data.

 

O ex-secretário de Educação do Distrito Federal, Rafael Parente, entende que o professor deve ser compreendido como o mais nobre de todos os ofícios.

“Se não morre aquele que escreve um livro e planta uma árvore, com mais razão não morre o educador que semeia vida e escreve na alma.” A frase foi pinçada por Parente para ressaltar a importância da profissão.

Ele lembra que o autor é o escritor e dramaturgo Bertolt Brecht. E, segundo o ex-secretário, revela o quanto o ofício de professor deveria ser encarado como o mais nobre de todos. “Os profissionais de todos os tipos precisaram frequentar uma escola e aprender com professores para, depois, contribuir com a sua comunidade, exercendo a sua prática.”

Sem comemorações

Na visão de Parente, neste 15 de outubro, o professor brasileiro não tem o que comemorar. Segundo dados divulgados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), nossos professores ganham menos do que a metade da média salarial paga a docentes em 46 países e trabalham mais do que eles.

De acordo com a organização, na rede pública, a média entre os professores da educação básica, no Brasil, é de US$ 12.337 por ano. Nos outros países, US$ 28.700. Nem o piso salarial de pouco mais de R$ 2 mil é respeitado. Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, mais de 10 estados brasileiros não pagam esse mínimo.

“O que vemos, em grande parte, é um cenário onde os professores não recebem pela importância e complexidade do seu trabalho, enfrentam salas de aula cheias e sem condições adequadas para exercer o ofício”, ressalta o ex-secretário.

Além disso, de acordo com a pesquisa estão entre os que mais trabalham. “Nos países analisados, o professor passa, em média, 40 semanas em sala de aula por ano. Os nossos permanecem duas semanas a mais trabalhando”, acentuou ele.

Processo histórico

A desvalorização do professor é um processo histórico no país, que caminha lado a lado ao sucateamento das políticas públicas de Educação. Um país que não valoriza a construção de futuro da sua juventude não vai valorizar, por conseguinte, um dos principais responsáveis por isso, segundo Parente.

O resultado desse descaso com os professores tem reflexos sobre como os jovens veem essa profissão. Uma outra pesquisa da OCDE, realizada com adolescentes de 15 anos durante o Pisa, em 2015, revelou que nenhum dos entrevistados quer se tornar professor (primário ou secundário).

“É um dado assustador e que precisa ser levado a sério. Se não conseguimos motivar nossos jovens a se tornarem professores dos que virão, o que será do futuro?”, questionou o professor.

Valorização

Quanto à importância de valorizar o profissional da Educação, na visão de Parente passa pela decisão de se tornar professor no Brasil, que é maior do que a escolha por uma determinada carreira profissional. Ele entende que “é uma decisão que carrega ideais e sonhos de se contribuir com a construção de um Brasil melhor para as próximas gerações”.

“Se a própria sociedade brasileira não reconhece a importância e complexidade desse ofício com salários e condições de trabalho adequadas, ou políticas públicas efetivas, não temos, sob qualquer aspecto, o que ser comemorado. E não temos como construir um país mais sério, moderno, justo e fraterno. Não valorizar nossos professores é destruir qualquer possibilidade de um futuro melhor para as novas gerações”, projetou o ex-secretário.

Formação moderna

Além da valorização financeira da profissão e de se investir nas condições de trabalho, é fundamental transformar completamente a formação dos professores, de acordo com Parente.

Ele enfatizou que segundo dados do MEC, dos mais de 1,4 milhão de estudantes matriculados em cursos de licenciatura, só 16% concluem a graduação.

São pouco mais de 230 mil formados, 33% nas universidades públicas e 67% nas particulares. Além disso, após a graduação, as políticas de formação continuada são ineficientes e incapazes de estimular os docentes a continuarem atualizando seus conhecimentos.

Os aspectos salariais e relacionados à carreira são muito importantes, como também são políticas efetivas de formação continuada, condições minimamente dignas de trabalho, boa infraestrutura, segundo o ex-secretário. “Não ter de pagar do seu bolso para ter materiais e instrumentos essenciais à sua prática, e, também muito importante, o reconhecimento social como uma de nossas maiores autoridades.”

Ao ser questionado qual mensagem teria para transmitir aos professores, o professor Rafael Parente argumentou que apesar do “período tenebroso” atravessado pelo país e dos ataques que a categoria vem sofrendo, “não desistam da sua missão e do Brasil”.

“Nunca deixem de lutar, de ter esperanças e de acreditar que podemos, com a força do nosso trabalho, mudar essa realidade. Precisamos nos mobilizar, e criar articulações e estratégias políticas para que tenhamos o que comemorar no futuro. Ou os professores se organizam, se mobilizam e lutam pelo que acreditam e querem, ou sua situação social e econômica continuará se degradando”, complementou o ex-secretário da Educação.

O ex-secretário de Educação do Distrito Federal, Rafael Parente, filho do ex-presidente da Petrobras, Pedro Parente foi exonerado pelo governador Ibaneis Rocha em agosto de 2019. Em seu lugar assumiu, o atual titular da pasta da Educação do DF, João Pedro Ferraz, o ex-procurador-geral do Ministério Público do Trabalho (MPT).