Coronavirus: Bolsonaro consegue se isolar no mundo, quais consequências?

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Ao negar a necessidade de distanciamento social e, mais do que isso, desobedecer as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), passeando e provocando aglomerações em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro manchou a já combalida imagem do país no exterior.

 

 

Para especialistas, a fatura do discurso contrário às orientações com bases científicas não será barata e o Brasil corre o risco de sofrer um isolamento comercial por conta da falta de controle sanitário. Nem mesmo a mudança de tom no último pronunciamento aliviou as críticas internacionais.

A imagem do país lá fora começou a se desfazer com a política ambiental do governo Bolsonaro — ou a ausência dela — em relação às queimadas na Amazônia. A falta de diplomacia nas relações com a China agravaram o quadro.

Porém, nada foi tão contundente quanto a insistência do presidente em negar a gravidade da pandemia de coronavírus.

Para piorar, Bolsonaro insiste em comemorar o golpe militar. Tanto que diversas entidades de direitos humanos apresentaram denúncia contra o governo brasileiro na Organização das Nações Unidas (ONU) por conta do comportamento do chefe do Executivo.

“Nunca, antes, o país esteve tão isolado diplomaticamente”, alerta André Reis, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Bolsonaro está em isolamento internacional, porque pouquíssimos países ignoram a pandemia”, diz.

Segundo ele, o negacionismo é de origem da direita antiglobalista, cujo principal defensor é Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a quem Bolsonaro imita.

“Eles têm ranço contra organismos internacionais. Veem ameaça em qualquer órgão da ONU, como é o caso da OMS, desprezam a atividade científica e divulgam informações falsas ou distorcidas”.

No entanto, Trump recuou e ampliou o período de quarentena.

“Vamos ver como Bolsonaro se comporta. Seria o momento de recuar também, mas ao que parece, dobrou a aposta”, lamenta o especialista. Para ele, há um repúdio internacional ao presidente brasileiro. “As críticas são pesadas quanto ao comportamento pessoal dele diante da crise. Em resumo, a comunidade internacional acredita que Bolsonaro não está preparado para enfrentar a crise. Por isso, enfrenta isolamento, tanto dentro do governo quanto no cenário internacional”, avalia.

O efeito é o encolhimento do Brasil. “Hoje, o país não tem capacidade de influenciar nada, isso tem impacto no comércio exterior, porque provoca afastamento de importantes compradores e investidores”, considera Reis. A segunda questão, segundo o professor, é sanitária, um dado muito importante em relações comerciais.

“Se o Brasil se mostrar descontrolado sanitariamente, vai perder espaços nas exportações. Corre o risco de um isolamento comercial”, sentencia.

Para Juliano da Silva Cortinhas, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a postura do presidente é lamentável. “O comportamento diante de um assunto de vida ou morte dos cidadãos se baseia nos achismos e visões incorretas do mundo. Isso pode trazer consequências muito graves”, avalia.

Criticados na diplomacia mundial

O professor alerta para o isolamento de Bolsonaro, inclusive das associações que apoiavam seu governo. “Há um distanciamento interno das Forças Armadas. Do ponto de vista externo, a imagem é ruim desde que o presidente assumiu, porque o chanceler Ernesto Araújo não colabora em nada”, destaca.

Cortinhas alerta que os dois — Bolsonaro e Araújo — são indivíduos muito criticados no meio internacional por posturas contrárias aos direitos humanos e ao meio ambiente.

“Desde que Bolsonaro assumiu, o país perdeu o status de cooperativo, de uma nação que privilegiava a cooperação. Hoje, o Brasil é unilateral, um país que não respeita o conhecimento científico”, lamenta. As atitudes do presidente, segundo o professor, demonstram sua inépcia para o cargo, sua incapacidade de conduzir o país.

“Eu vejo que existe um cálculo por trás das suas afirmações. Ele tentou se capitalizar politicamente com o discurso de proteger o interesse dos mais pobres, garantindo empregos. Diante da gravidade do coronavírus, foi um grande erro de leitura. Perdeu muito apoio nas redes sociais, se deu conta de que a tacada foi errada, mas não sabe como corrigir”, assinala. (Correioweb)