Covid-19 pode modificar a anatomia cerebral, revela estudo

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Análise de 60 pacientes recuperados da doença revela alterações em seis regiões do cérebro; anormalidades persistem meses após a cura.

 

Além de atacar o sistema respiratório e o coração, o Sars-CoV-2 também pode causar sintomas neurológicos como perda de memória, alterações na visão e audição, dores de cabeça, tremores e torpor nos membros. Isso tem sido relatado por diversos trabalhos científicos, mas a mecânica das alterações ainda é um mistério: não se sabe como o novo coronavírus penetra no cérebro, e o que provoca no órgão. Um novo estudo, produzido por 11 cientistas chineses e publicado no jornal EClinicalMedicine, pertencente ao Lancet, traz a primeira pista: o vírus causa alterações anatômicas em seis regiões do cérebro, e elas continuam deformadas mesmo depois que a pessoa se curou.

Os cientistas selecionaram 60 pacientes que foram hospitalizados com Covid-19 nos meses de janeiro e fevereiro. Em maio, depois que todos já haviam tido alta, eles passaram por exames de ressonância magnética do cérebro. Os exames desses pacientes foram comparados aos de um grupo de controle, formado por pessoas que não pegaram o novo coronavírus. Os pacientes que tiveram Covid-19 apresentavam maior massa em seis regiões cerebrais: córtex olfativo, hipocampo, ínsula, opérculo rolândico esquerdo, giro de Heschl esquerdo e giro cingulado direito. Também apresentavam menor difusibilidade média (MD) e maior anisotropia fracionada (FA), indicando alterações na densidade da massa cinzenta.

Áreas do cérebro que apresentaram aumento (em vermelho) e regiões com alteração na densidade cerebral (em azul) em pacientes de Covid-19. The Lancet/Reprodução

Segundo os pesquisadores, essas alterações demonstram relação com os sintomas relatados pelos pacientes durante a infecção pelo Sars-CoV-2. Das 60 pessoas avaliadas, 41 (68%) apresentaram problemas neurológicos, como alterações na visão (21%), perda de memória (13%), perda de paladar (6,6%), tremores (6,6%), perda de olfato (3,3%) e perda auditiva (1,6%). Três meses após a infecção, com os pacientes já curados da doença, 50% ainda relatavam sintomas do tipo.

Isso, mais os resultados dos exames de ressonância magnética (que foram realizados em média 97 dias após o diagnóstico da Covid-19, ou seja, já com os pacientes curados), abre espaço para uma hipótese preocupante: de que a infecção pelo Sars-Cov-2 possa causar alterações neurológicas de longo prazo, ou até permanentes, em algumas pessoas. (Superinteressante)