Vegetarianismo, fome oculta, segurança alimentar: além da escolha saudável

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Por muitos anos, os profissionais de saúde continuadamente informaram aos pacientes e a população de forma geral, conceitos relacionados à escolha saudável, criando a ideia de que reduzir gordura saturada, sal e açúcar, aliado ao consumo de frutas, legumes e vegetais finalizaria o processo de saúde e prevenção de doenças. Na verdade, o entendimento atual conduz a uma nova série de observações críticas, desde a escolha, passando pela aquisição e terminando na ingestão dos alimentos.

O mundo vegetariano: essa é uma dúvida frequente no meu consultório. Os pacientes, com dietas mal orientadas, podem apresentar déficits de peso, deficiências na dosagem sanguínea de vitaminas (B12 e D), ferro, cálcio e zinco, bem como de proteínas e funções metabólicas. Com isso, desenvolvem anemia, deficiências ósseas, queda da imunidade e perda da massa magra (músculos), além de algumas variações hormonais.Nesses pacientes, é muito importante a avaliação clínica e laboratorial rotineira.

A avaliação individual correta pode prevenir problemas sérios de saúde, liberando à prática alimentar no mundo vegano com maior segurança. Eu tenho especial atenção em pacientes idosos, executivos(as) com alimentação irregular, praticantes de atividade física intensa, gestantes e crianças em crescimento, sem falar em períodos de pós internação hospitalar.

Tipos de dieta

Existem diversos grupos dentro do mundo vegetariano:

  • Vegetariano: Não come nenhum tipo de carne;
  • Ovovegetariano: Não come nenhum tipo de carne e de ovos;
  • Lactovegetariano: Não come nenhum tipo de carne, leite e derivados. Come ovos;
  • Ovolacteovegetariano: Não come nenhum tipo de carne, leite e derivados e ovos;
  • Vegetariano estrito: Não come produtos de origem animal de forma radical, não ingere mel, por exemplo;
  • Vegano: Semelhante ao vegetariano estrito, também não consome produtos testados em animais.

Outra moda, paralela ao mundo vegetariano é a da dieta flexitariana. Essa é uma das novidades no mundo fashion das dietas da moda. O trabalho, que gerou a fama, foi publicado em uma revista conceituada: Journal of Obesity and Metabolic Disorders. Basicamente indica restrição calórica, escolha balanceada dos alimentos e macronutrientes e ingesta de carne (qualquer tipo), duas vezes por semana.

Fome oculta

Outro tópico de grande relevância é a fome oculta. É bom conhecer detalhes e entender as grandes preocupações em saúde pública focada em alimentação e nutrição. A fome oculta é a deficiência de micronutrientes (vitaminas e minerais) que frequentemente não mostra sinais ou sintomas, mas que pode levar a alterações silenciosas e resultar em sequelas a longo prazo. Atualmente, a deficiência de micronutrientes afeta mais de 2 bilhões de pessoas no planeta.

Ela ocorre quando a qualidade dos alimentos ingeridos não atinge as necessidades do indivíduo. Acomete principalmente as crianças devido à maior demanda de micronutrientes nesse período, em decorrência do crescimento e do desenvolvimento. Não importa o peso da criança, a fome oculta pode afetar os mais magros, os mais obesos, ou até mesmo aquela com peso adequado.

O grupo dos idosos, com má alimentação, também podem apresentar sérias deficiências. Entre os minerais que resultam em carência nutricional, podemos destacar o ferro, o zinco, o iodo, o selênio, o cálcio, o magnésio e o fósforo. No mundo, são mais frequentes as deficiências de ferro, zinco e iodo, sendo a de ferro a mais prevalente.

Nutrientes

ferro é um mineral essencial para o transporte de oxigênio, para o desenvolvimento cerebral e atua no sistema imunológico. A principal consequência da carência de ferro é a anemia, e, na criança, pode afetar o crescimento, causar déficit de aprendizagem e de cognição, além de aumentar o número e a gravidade dos quadros infecciosos. Garantir a ingestão de carnes, espinafre, ostras, fígado, ervilha e legumes, é a melhor forma de prevenir a sua deficiência.

zinco também é importante para o desenvolvimento e crescimento da criança, e atua nos sistemas imune e reprodutivo, na cognição, na visão e no paladar. Portanto, a sua deficiência pode levar ao retardo de crescimento e da puberdade, assim como alterações de pele e de cicatrização, no paladar e falta de apetite. Como principal fonte de zinco temos: ostras, carnes e vísceras, grãos integrais, castanhas, cereais, legumes e tubérculos. A síndrome da fadiga crônica, comum em executivos, pode ser desencadeada pela deficiência de zinco.

cálcio, encontrado principalmente no leite e nos produtos lácteos, é o mineral mais abundante no corpo humano, e, juntamente com o fósforo, compõe os ossos e os dentes. inda atua na contração muscular, na manutenção da pressão arterial, na coagulação e na oxidação de gordura, diminuindo a massa gorda. Idosos com níveis baixos, pode apresentar indícios de osteopenia e osteoporose.

No Brasil, a deficiência de iodo tem sido combatida com a iodização do sal. O iodo compõe os hormônios da tireoide e também atua no crescimento e no desenvolvimento cerebral. Daí a sua carência gerar hipotireoidismo, retardo mental e atraso cognitivo. Nos alimentos, o iodo está presente nos alimentos marinhos, sal iodado, leite e ovo.

Alguns alimentos podem dificultar ou favorecer a absorção dos minerais. A ingestão de frutas cítricas junto aos alimentos fonte de ferro, por exemplo, aumentam a sua absorção, porém o refrigerante e o leite podem atrapalhar, por isso se recomenda evitar a ingestão de leite durante as refeições principais. Em altas doses, o ferro prejudica a absorção de cobre e zinco, sendo um dos motivos por que se deve evitar a associação, na mesma refeição, de industrializados fortificados (por exemplo, fórmulas lácteas e cereais infantis).As dosagens rotineiras, por meio de exames laboratoriais, devem avaliar esses minerais e a necessidade de reposição.

Boa alimentação

Uma alimentação balanceada, com a presença de carboidratos, proteínas, lipídios, sais minerais (cálcio, zinco, cobre, potássio, magnésio) e vitaminas, é indispensável para alcançar saúde e qualidade de vida. A utilização exclusiva de medicamentos não resolve. Por essas e outras razões, o ideal é selecionar alimentos em bom estado e com alto valor nutricional, capazes de atender as necessidades do corpo humano.

Na atualidade, um dos pontos mais importantes é a observação da segurança alimentar, higiene na embalagem e na conservação dos produtos nas prateleiras. Aliás, frutas e verduras frescas tendem a ter mais vitaminas em comparação àquelas que permanecem nas prateleiras. Desta forma, sucos consumidos após o preparo certamente são melhores dos conservados em geladeiras. A degradação ocorre ainda durante o transporte, quanto mais rápido for o consumo após a colheita, maior é o valor nutricional.

A cor e o odor também são fatores importantes, tanto como sinal da qualidade, quanto como estímulo à escolha do consumidor. Um alimento passado ou estragado deve ser evitado. A presença de bactérias, fungos e vírus podem acarretar uma infecção ou intoxicação alimentar. A temperatura ambiente favorece a multiplicação desses microrganismos. Portanto, um clima ameno reduz a proliferação dos organismos que deterioram os alimentos e os mantêm nutritivos.

Pessoas com uso de diuréticos, medicamentos para diabetes e outras terapias de doenças crônicas, necessitam, no mínimo, de cinco porções diárias de produtos do reino vegetal e a checagem laboratorial do nível sanguíneo de minerais é extremamente importante. Com tantas opções no mercado, a observação dos alimentos é ferramenta fundamental para boas escolhas.

Uma verdura adequada para consumo deve apresentar intensa coloração verde, sem manchas ou furos, ausente da presença de insetos ou odor de decomposição. Outras questões dignas de atenção são frutas e legumes descascados, pois são mais suscetíveis de contaminação. Além da verificação do estado daqueles alimentos que são comercializados em caixas, como morangos e uvas, saber compreender o rótulo das embalagens também ajuda a encontrar a melhor alternativa.Por fim alimentação e nutrição devem ser vistos em um novo enfoque, no qual devemos nos situar além da escolha saudável.

 

Daniel Magnoni

 

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